
Nos seus 25 anos de trabalho intenso no Brasil, Mestre Liu Pai Lin nunca lançou um curso específico de formação de professores. Formou-os incansavelmente, no entanto, dos seus primeiros tempos entre nós até seus últimos dias de vida. Como o fazia? Simplesmente disponibilizava a todos suas aulas de Tai Chi Pai Lin, e vínhamos aprender.
Mas... como nos transformava de alunos em professores? Acendendo nos nossos corações o amor pelo treinamento do Tao, pelo cultivo da energia vital, pela prática diária: “O segredo do Tai Chi é a prática diária”, dizia.
Porém não só nos ensinava a cultivar a agilidade e a flexibilidade através do Tai Chi, do Tai Chi Espada e do Pa Kua Tsan; afirmava sempre: “O Tai Chi é uma filosofia de vida”, e alimentava-nos, paralelamente, com a filosofia do Tao, transmitindo-nos o entendimento do Tao Te Ching, dos princípios da medicina e do Livro das Mutações — o I Ching, tal como as técnicas do Chi Kung, da massagem terapêutica Tui Ná, e os treinamentos da alquimia interna — a meditação Tao Yin. Abria espaço nas aulas de Tai Chi para falar sobre os temas mais filosóficos, e oferecia-nos aulas específicas sobre eles, abertas a todos. Explicava que precisava falar muito, sobre os diferentes aspectos da tradição do Tao, pois era entendendo os porquês das práticas que teríamos a determinação necessária para treinar.
O resultado do seu amoroso empenho era que de fato nos apaixonávamos pelo que ensinava, ao sentirmos o treinamento soltando nossos corpos, esvaziando e serenando nossos corações e mentes, transformando nossa energia, fazendo abrir-se, elevar-se e tornar-se mais sábio nosso espírito. A paixão nos fazia praticantes ainda mais dedicados, a dedicação crescente nos trazia benefícios ainda maiores.
Quando lhe perguntavam como saber quem já estava apto a ensinar, e a ensinar o que, o Mestre respondia apenas: “aquilo que você já treina, e já sente os benefícios do treinamento, você já pode ensinar...”. Era assim que muito naturalmente começávamos a ensinar, conforme as oportunidades surgiam: um grupo crescia e o professor responsável convidava um aluno mais adiantado para ajudá-lo, como seu assistente; ou as pessoas pediam ao Mestre alguém para dar aulas nalgum lugar, nenhum professor estava disponível, um novo professor era indicado.
Mas o Mestre também muitas vezes nos exortava a começar a dar aulas, argumentando que era muito importante, para cada um de nós, comprometer-se com um grupo de alunos, para termos mais disciplina e constância no nosso próprio treinamento. Uma vez ouvi-o dizer a um antigo aluno que o procurara para uma consulta, preocupado com um problema no corpo, depois de vários anos afastado dos treinamentos: “Você precisa dar aula de Tai Chi todo dia, todo dia...”.
E ao ver-nos ensinando o que já sabíamos, e continuando a freqüentar suas aulas, buscando uma formação mais segura, passava a tratar-nos com uma proximidade maior, com mais carinho, e já não cobrava suas consultas, quando o procurávamos para diagnosticar algum desequilíbrio, ou dar-nos alguma orientação pessoal: promovia-nos a discípulos, antes mesmo de qualquer iniciação formal, chamava-nos sementes taoístas — futuras árvores do Tao destinadas a formar outras tantas sementes no futuro.
O hexagrama número 17 do I Ching — Seguir — pode ajudar-nos a entender melhor a atitude correta no caminho da formação taoísta. Os trigramas que o compõem — o Lago em cima, representando serenidade, alegria, e o Trovão embaixo, representando movimento, renovação — nos mostram uma postura externa leve, serena e alegre, aflorando naturalmente, no exterior, como expressão visível do trabalho permanente de autoexame e transformação no interior.
O texto desse hexagrama nos diz:
"Seguir é prosseguir com alegria, ou acompanhar. Como se pode influenciar o povo a seguir? [...] Apenas por meio da humildade pode-se atrair seguidores. Quando alguém quer liderar, primeiro deve aprender a ser liderado. Assim, haverá progresso e êxito" (I Ching, Edição Completa, Alfred Huang, Martins Fontes Editora, primeira edição, pgs. 162, 163).
Essas palavras iluminam com clareza as duas faces do método natural de formação de professores usado pelo Mestre, com que ele formou a mim e aos meus irmãos e irmãs de treinamento. A quem ensina, Seguir sugere que sejamos receptivos — humildes — para saber sentir o que cada candidato ou candidata a professor necessita para ir se formando. As pessoas que nos procuram trazem seus dons e bloqueios peculiares, e estão em momentos distintos da sua evolução: não se pode oferecer somente um pacote pronto para todos; “aprender a ser liderado” pelos alunos é adaptar-se ao seu momento, às suas necessidades, oferecendo-lhes o que precisam.
Ao candidato, Seguir também sugere que seja humilde, pois “primeiro deve aprender a ser liderado”: o ponto de partida da sua formação como futuro professor de Tai Chi Pai Lin só pode ser, muito simplesmente, vir aprendê-lo como aluno.